Nenhum artista é casto
Martha Medeiros
Como bons católicos, nós, brasileiros, tendemos a pensar que, na vida, o amor é muito mais importante do que o sexo
Lenny Kravitz estava ali na minha frente, no palco, não apenas contando e tocando excepcionalmente bem, mas também monopolizando a plateia com seu suingue, sua garra, sua sensualidade, quando me veio à cabeça uma frase do diretor de teatro Zé Celso Martinez Correa: “Nenhum artista é casto”. Kravitz, sem dúvida, não é.
Pintar, dançar, atuar, escrever, tocar – nada disso se faz (bem) sem tesão. Não é uma palavra que eu considere adequada para se usar numa crônica de jornal – tenho lá minhas frescuras – mas não há outra que empregue tão bem o sentido de excitação que é imprescindível a toda obra de arte.
Como bons católicos, tendemos a pensar que, na vida, o amor é mais importante do que o sexo. Há controvérsias. Mas, em arte, o sexo é muito mais imprescindível que o amor. Ok, é possível criar uma obra no piloto automático, sem emoção, mas ao envolver sua libido é que a sedução acontece para valer: você atiça o seu público, provoca, incendeia, ou mesmo encoleriza, não importa. A verdade é que ninguém fica apático, você não põe ninguém pra dormir.
Não se está falando de arte pornográfica ou amparada na vulgaridade, espero que esteja claro. Está se falando de toda e qualquer arte. Até uma bossa nova precisa ser criada com algum vigor sexual, assim como um poema, um quadro – há sempre que se injetar uma potência superior à simples inspiração. Um artista inspirado, porém sem desejo, é burocrático, enfadonho, repetitivo. É preciso que ele faça parceria com o demônio, o demônio essencial da criação, aquele que o artista exorciza nos palcos, nas páginas, nas telas do cinema – ou mesmo numa orquestra de câmara, porque os demônios não são todos guitarristas nem tatuados, há tesão nos engravatados, nos idosos, nos casados, nos clássicos e principalmente nos puros – que pureza, em arte, não é sinônimo de castidade, mas de outro tipo de imaculação: artistas não influenciados por dinheiro, mídia, poder, vaidade, ainda que tudo isso possa vir depois. Nunca antes.
O artista pode ser religioso, crente, pode até ser virgem, mas não pode ser casto, não pode prescindir do que há nele de febril, não pode negar-se a ter uma relação passional com sua obra, não pode criar sem volúpia, sem doar-se e sem – com perdão aos mais puritanos – gozar. Nenhum artista é casto, ou então não é artista.
Domingo, 27 de março de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.